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Boca grande, Corpo pequeno

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A boca grande engolia o corpo pequeno como se fosse uma epopeia mítica - e apocalíptica -, sob um céu de nuvens densas e escuras que se erguem acima de grandes e sangrentas batalhas e cujos heróis, como esperado, sobrevivem no final, abraçados ao milagre.
Se eu acreditasse em Deus, ele pensava, provavelmente O encontraria com a bússola da língua no meio da pele dela, misturado aos pelos e suor, como um deus epidérmico que recebesse orações feitas de arrepios e calor.
Herege!, ela riria, amaldiçoada desde o ventre com desejos que não tinham chegada, nem partida, e que a inundavam feito gasolina para uma perene combustão, as moléculas queimando, queimando, de fazer ciúme ao sol.
Os lençóis molhados, maltratados, eram das poucas testemunhas.
Foi quando desceu a lua, invisível no meio das nuvens cheias, das luzes que caíam e dos tambores ensurdecedores cantando com a chuva, escute, que ela gozou tão alto que mesmo os sonos mais profundos foram interrompidos, por susto e por cobiça.
A boca…

Inhamuns: prelúdio

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Sugou-me a alma pelo meio das pernas.

Era uma festa.

O cigarro já queimando a boca e, na alumiada escuridão, valsavam sombra, vento e fumaça; e a chama engolia a erva e o papel, movendo-se rapidamente em direção aos meus lábios.

Ele dizia que me amava. Eu só escutava.

Da metade para lá, o céu se estirava feito uma caverna comprida onde se escondiam estrelas tristes com a música que eu tinha escolhido para cantar no meio daquele campo sem nuvens, madrugada plena e sertaneja à beira da Ce-020.

A língua vasculhava as reentrâncias.

Re.
En.
Trân.
Cias.

Ilustração de Felipe Stefani @stefanifelipe

Que palavra bonita, cheia de lugares para umedecer, pensei, junto com os anjos caídos.

Agarrei com uma das mãos os cabelos dele, recém-cortados, e levei o cigarro à terra com a outra, gemendo alto com a morte que se aproximava.

Naquela noite, nenhum mal nos encontrou.

E eu compreendi, sem medo nem vergonha, que aquele era um homem a ser amado.

Depois de dar ouvido a mais um dos meus pedidos e desbr…

Ridendo Castigat Mores

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Ela empinou pra lá a bunda, pedindo a ele que esfregasse mais para baixo, um pouco mais distante das costas, porque ali a massagem era boa, muito boa, só não melhor do que nas virilhas e nos pés, mas ganhando inclusive das mãos.

E assim os dedos iam satisfeitos, úmidos de Paixão, como acontecia toda terça e domingo, que eram os dias em que a mãe dele ia à igreja e o deixava com a vizinha, “Ai, minha filha, são os dias favoritos dele na semana”, a velha repetia toda vez que o entregava na porta ao lado, agradecendo pela disponibilidade e prometendo fazer uns doces, assar uns bolos, apresentar o nome da mulher em oração.

O menino tinha já mais de vinte e poucos anos e permanecia menino por causa da cabeça, explicava a mãe, que não crescia nunca em maturidade; era um inocente no meio de lobos devoradores, com uns olhões gentis e, no começo, muito desconfiados também.

Detestava o padre e a lenga-lenga das rezas e, à menor vista do homem santo, gritava feito um condenado em pleno suplício,…

En attendant Godot

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Eu estava de pé em plena madrugada, observando meu reflexo nas portas temperadas de uma casa de câmbio e pensando na circunferência da minha cintura, quando alguma coisa brilhante na flor que ele carregava refletiu numa das lentes dos meus óculos. Eu o teria ignorado, não fossem os passos impacientes, quase desesperados, de quem ia e voltava sempre de lugar nenhum. Senti o cheiro da tragédia e, desocupada pela espera, decidi segui-lo e descobrir o seu Godot. Às três da manhã, o aeroporto andava vazio, aqui-acolá com barulhos de reformas e de rodinhas de malas ou de carrinhos de limpeza, mas o tempo todo com ruídos de pés. Os pés dele, dentro de sapatos muito formais e lustrados, indo e voltando, descendo e subindo. Pegamos um, dois, três, quatro lances de escadas rolantes. Ele e a flor à frente; eu feito o absurdo atrás. “Não é possível”, ouvi-o dizer. Quase me vi perguntando o quê, mas ele seguia caminhando em ponto de corrida, os olhos farejando, as pupilas de um cachorro esfomeado…

A vez das bruxas

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Aconteceu numa tarde familiar de domingo. Decidida, uma mulher verteu o sangue do lar, lavou o corpo e cobriu os hematomas com longas e coloridas indumentárias. Não era festa. Mas há que se falar em celebração, pois, depois de toda aquela vida e de todos aqueles anos de comiseração e espreita pela janela, muitas vezes interrompidas por um homem com puxões de cabelo e espancamentos, ela compreendeu, após fechar o livro mais recente e depois de ouvir lá fora as vozes das suas irmãs, que não precisava mais sentir medo. 
Abriu a porta e, com o primogênito ao seu lado, deixou-se experimentar, por um tempo de respirações profundas, o sol que brilhava lá fora há algumas décadas. 
Mas não se engane, você, que lê esta histórica afronta: o mundo ainda era, surpreendentemente, uma grande e populosa Salém, um largo campo de batalhas acessado por corredores inquisitoriais. E viver era atravessá-los e aos seus constantes e inúmeros perigos, muitas vezes sozinhas, muitas vezes vezes levando pelas m…

Cadê a passagem secreta?

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São Paulo, 27 de Setembro de 2018

Eu nem sei como eu escrevo. Eu tive alergia e meus olhos incharam, incharam. Eu devo merecer. E aí estava tudo bem, até que eu comecei a chorar. E os olhos, já inchados da alergia, ficaram bem fechadinhos e molhados, pra eu não ver nem bem as minhas mãos, tremidas no embaçado de todas as coisas.
Parece que eu ando carregando uma placa. Uma placa que diz assim: CORAÇÃO DISPONÍVEL PARA MAUS TRATOS. Parece que eu ando carregando essa placa e anunciando nas ruas, pra toda a gente, que sou boa de ser enganada e usada, que sou boa de ser abandonada, que sou boa, muito boa, boa de pisotear. 
Eu tô sozinha no meio do cinza, com um monstro dentro de mim. Ele se alimenta de todos os meus medos, gestação antiga, e põe os olhos vermelhos pra fora toda vida que eu percebo os erros que cometi. A minha cabeça vai explodir, espero que comece pelos olhos inchados, que não serviram de coisa nenhuma quando estavam sãos!, onde estavam quando eu precisei enxergar as pess…

Tangerinas e multiversos

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As mãos iam cheirosas de tangerina enquanto ela tentava juntar os papéis que voavam pela sala, as janelas de vidro sacudindo violentamente com o vento, e uma das cortinas já estropiada. Fazia frio e ia chover.
O coração andava tonto, como o olhar de quem vislumbra, de cima para baixo, uma escadaria circular de muitos, muitos andares, mas cuja subida ainda estava longe do fim.
Então ela fechou as janelas com força e sentou desconsolada no chão, os cabelos bagunçados e duas lágrimas miúdas e transgressoras prontas para escapulirem pelo cantinho do olho direito. 
Mais cedo, naquele dia, ela tinha escrito alguma coisa para ele pela última vez, desejando ter vivido num mundo onde ele fosse menos malvado e se deixasse ser amado. 
Ilustração de Fabiano Seixas Fernandes @fabiano.seixas.fernandes
Aquela era uma paixão natimorta. E senti-la era como falar sobre as coisas que não dão certo, mas que, esperançosamente e feito recompensa triste, poderiam ser realidade noutros universos.
Uma lágrim…