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Receita nova

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De costas para o chuveiro e com o olho na rua, porque o banho tinha vista, ela abriu bem as nádegas para deixar a água quente escorrer. Imediato. A dilatação entrecoxas libertou um xixizinho pouco, involuntário. Vento gelado no rosto, frente fria noticiada nos jornais e uma curiosidade silenciosa para saber com quem o mundo seria cruel naquela noite de céu limpo, mas sem coração.

Ele esperava no quarto, dez anos mais jovem e intumescido desde as fragrâncias vaporosas que escapavam por debaixo da porta do banheiro. O sangue desvairava em combustão - proximidade do experimento - desejo mundano muitas vezes convertido em orações e agora realizado por algum deus muito generoso.
Mais tarde, entoaria aleluias.
Vozinha suave, passos molhados. Ela perguntou se ele tinha trazido os doces. Docinhos me deixam feliz, repetia, olhando o tipo de cada um e sorrindo para a receita nova. Tudo surrupiado, que ele não tinha dinheiro para pagar. Sem importância. Os patrões não davam conta do que ia para …

Exercício sem título - 24.02.19

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Tinha as costas bonitas, eu observava, enquanto ela contava alguma história e eu a massageava. Meu pau murcho e enrugado sobre a bunda pequena e redonda parecia muito sério e concentrado no relato. 
"Eu era criança, naquele tempo, não tinha nem uns quinze anos, tenho certeza, quando a vizinha amiga da minha mãe chamou a gente para passar uns dias no Icaraí, na casa de uma tia rica dela. Ela tinha chamado também um amigo, que tinha um bigode grosso, era engraçado e tocava violão, eu me lembro. Eu me lembro porque todas as coisas boas que ele significava deixaram de fazer sentido, da noite para o dia, quando eu soube da notícia. Hum, o que você está fazendo?"
Eu não sabia.
"É muito bom", ela refletiu, mas com ares muito distantes.
"Que notícia?", eu incentivei, massageando, arrancando cravinhos com a unha e olhando as curvas presas sob as minhas pernas.
"Pois então. Aquele foi um final de semana desses que não são exatamente felizes, porque são meio im…

desejo dela

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Às segundas, as professoras se reúnem para planejar.

Cenário sem desagarros, sem aflições. O que você pensa que está fazendo?

Não diga nada. Não se comprometa.
Faz um rodeio, um floreio. Mas ela não pode saber. Minta. Isso, isso. Minta.
Ela não vai te dar ouvidos. Se der, vai ter medo de você. Risada? Só se fosse muita sorte!
E o peito dela, redondo, não vai sequer palpitar.

Veja você, ingênua predadora, olha para ela como se visse o único lugar que importa no mundo, imaginando a velocidade e temperatura do sangue suculento no pescoço macio. Não seja besta. É noutro que ela pensa, com outro que se deita.
Por isso, não fala nada. Espera, não se comprometa.
Arranca esta página e joga no lixo mais próximo. É que ela, sentada tão perto de ti, tem os poros longe, o suor noutro país, a penugem noutro hemisfério. Então, minta.
Fala pra ela que gosta de um outro também. Mesmo sentindo essa sede, esse calor, esses vapores no meio das pernas, no alto do peito, nas palmas das mãos!, não têm feito…

Pequenas resenhas: Exercícios de Fixação, de Antonio Lacarne, e seu necessário mal-estar

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A paixão com que escreve o escritor cearense Antonio Lacarne acaba imprimindo um estilo inconfundível (e viciante) à sua obra. São leituras heroicas, eu sempre digo, porque elas salvam a gente de muitas maneiras, seja no reconhecimento das nossas misérias humanas, seja na identificação das nossas grandezas espirituais.
Foto: Arquivo do Facebook do escritor
O seu novo livro de contos, Exercícios de Fixação, publicado em 2018 pela A.R. Publisher e muito bem recebido pela crítica literária e pelos demais leitores, reúne dezessete textos que realçam várias formas de dores e violências existenciais, discutindo temas como suicídio, solidão, bullying, homofobia e medos, medos imensos, que se perdem no horizonte.
"A sua amabilidade é a dona de uma planta já morta no jarro, mas que por teimosia ela continuaria a regar. E a vida não rega a mulher. A planta não sobrevive. Os sonhos se estagnam. Era como se Arlete e seu destino andassem na ponta dos pés com medo de esbarrar em algo pontiagudo…

Boca grande, Corpo pequeno

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A boca grande engolia o corpo pequeno como se fosse uma epopeia mítica - e apocalíptica -, sob um céu de nuvens densas e escuras que se erguem acima de grandes e sangrentas batalhas e cujos heróis, como esperado, sobrevivem no final, abraçados ao milagre.
Se eu acreditasse em Deus, ele pensava, provavelmente O encontraria com a bússola da língua no meio da pele dela, misturado aos pelos e suor, como um deus epidérmico que recebesse orações feitas de arrepios e calor.
Herege!, ela riria, amaldiçoada desde o ventre com desejos que não tinham chegada, nem partida, e que a inundavam feito gasolina para uma perene combustão, as moléculas queimando, queimando, de fazer ciúme ao sol.
Os lençóis molhados, maltratados, eram das poucas testemunhas.
Foi quando desceu a lua, invisível no meio das nuvens cheias, das luzes que caíam e dos tambores ensurdecedores cantando com a chuva, escute, que ela gozou tão alto que mesmo os sonos mais profundos foram interrompidos, por susto e por cobiça.
A boca…

Ridendo Castigat Mores

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Ela empinou pra lá a bunda, pedindo a ele que esfregasse mais para baixo, um pouco mais distante das costas, porque ali a massagem era boa, muito boa, só não melhor do que nas virilhas e nos pés, mas ganhando inclusive das mãos.

E assim os dedos iam satisfeitos, úmidos de Paixão, como acontecia toda terça e domingo, que eram os dias em que a mãe dele ia à igreja e o deixava com a vizinha, “Ai, minha filha, são os dias favoritos dele na semana”, a velha repetia toda vez que o entregava na porta ao lado, agradecendo pela disponibilidade e prometendo fazer uns doces, assar uns bolos, apresentar o nome da mulher em oração.

O menino tinha já mais de vinte e poucos anos e permanecia menino por causa da cabeça, explicava a mãe, que não crescia nunca em maturidade; era um inocente no meio de lobos devoradores, com uns olhões gentis e, no começo, muito desconfiados também.

Detestava o padre e a lenga-lenga das rezas e, à menor vista do homem santo, gritava feito um condenado em pleno suplício,…

En attendant Godot

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Eu estava de pé em plena madrugada, observando meu reflexo nas portas temperadas de uma casa de câmbio e pensando na circunferência da minha cintura, quando alguma coisa brilhante na flor que ele carregava refletiu numa das lentes dos meus óculos. Eu o teria ignorado, não fossem os passos impacientes, quase desesperados, de quem ia e voltava sempre de lugar nenhum. Senti o cheiro da tragédia e, desocupada pela espera, decidi segui-lo e descobrir o seu Godot. Às três da manhã, o aeroporto andava vazio, aqui-acolá com barulhos de reformas e de rodinhas de malas ou de carrinhos de limpeza, mas o tempo todo com ruídos de pés. Os pés dele, dentro de sapatos muito formais e lustrados, indo e voltando, descendo e subindo. Pegamos um, dois, três, quatro lances de escadas rolantes. Ele e a flor à frente; eu feito o absurdo atrás. “Não é possível”, ouvi-o dizer. Quase me vi perguntando o quê, mas ele seguia caminhando em ponto de corrida, os olhos farejando, as pupilas de um cachorro esfomeado…